A indústria da música durante o isolamento

Fotografia: gentilmente cedida por Rodrigo Silveira
Fotografia: gentilmente cedida por Rodrigo Silveira

Diante das medidas de isolamento social tomadas pelo Governo, artistas de diversas correntes têm encontrado dificuldades financeiras. Rodrigo Silveira, músico brasileiro vivendo em Portugal, tem utilizado formas diversas de continuar ativo.

Originário de Bagé, no estado do Rio Grande do Sul, Silveira trabalha como músico e compositor em Coimbra, e faz também parte do conjunto Grupo do Beco. Com a quarentena instaurada após o surto da Covid-19, o artista conta ao Conceitual como que sua carreira foi afetada e quais são suas esperanças para a profissão.

Você hoje trabalha como músico em Portugal, fazendo inclusivamente parte de um conjunto. Por que você deixou a carreira de advogado para se tornar músico?

Eu me mudei para cá para fazer uma especialização em Direito Penal e Econômico, eu estava advogando no Brasil e vim para estudar. Até então, eu praticamente nunca tinha viajado de avião, apenas uma vez para São Paulo, a fim de tirar o visto para vir para [Portugal]. Foi a oportunidade que eu achei, mas nesse meio tempo vi que não queria trabalhar com Direito, estava exausto do dia-a-dia do escritório, e decidi ficar trabalhando com música aqui. Já tocava no Brasil, no meio da faculdade comecei a tocar em bares, mas nunca levei como algo sério, foi sempre um hobby. Eu fazia Direito, minha dedicação era muito mais para isso, a música eu não levava muito a sério. Trabalhei na noite e em festas, por cinco anos. Interessei-me mais pela música quando comecei a estudar [a área], e vi que tinha muito mais além do mercado do entretenimento noturno. Aí eu quis realmente largar o Direito, e fazer o que estava me chamando, me fazendo feliz.

A indústria musical tem enfrentado muitas dificuldades com as restrições devido à Covid-19. Qual o principal problema que enfrentou desde o início da quarentena?

Foi complicado, já tem uma lojística preparada, a gente já começa a se acostumar a tocar aos fins de semana. Eu estou em Portugal há um ano, mas cheguei para estudar e tentar a música, ver se era isso o que eu queria. O início do projeto com o Grupo [do Beco] foi em setembro, ou seja, agora mesmo que tínhamos uma agenda todo o final de semana, tínhamos lugar para tocar. Olhava para o final [do mês] e dizia “está legal, consegui me virar com o dinheiro este mês, não vou tomar sufoco”. Eu não dependo dos meus pais, sempre foi na minha luta, na minha correria, e eu consegui olhar para aquele mês e pensei “não vou ter que ficar fugindo de senhorio, não vou ter que atrasar as contas”; e [logo depois] foi quando deu a pandemia. Começou a quarentena, daí cancelou tudo. [Apresentamos no] primeiro final de semana de março, e a partir dali cancelaram. No início foi um baque, você fica pensando “o que eu vou fazer agora?”. Foi muito complicado, psicologicamente principalmente.

Como que você tem lidado com essas adversidades? 

Sempre tive uma consciência muito grande de que a música envolve muito mais do que simplesmente tocar, pois abrange questões como produção de conteúdo, de áudio e de vídeo, e marketing. Todas as pessoas que eu seguia já falavam disso há muito tempo. Mas é aquilo, vamos trabalhando com a noite, dedicando-nos ao que dá dinheiro na hora, e acabamos deixando isso de lado. Assim que eu tomei o baque, dei uns dias e pensei: agora é a hora de eu trabalhar algo que já deveria ter começado há muito tempo, que é a questão da rede social, da imagem, fazer contato com as outras pessoas. As lives surgiram porque eu pensei que deveria continuar em contato com a galera, seguir desenvolvendo projeto com pessoas que eu admiro, que eu vejo que estão trabalhando nessa situação. Criei uma série de lives [no Instagram] às quartas-feiras, onde falo com alguém ligado à música ou à produção de conteúdo, comecei a postar videos no Youtube, a estudar [edição de] áudio e vídeo. O projeto “Canções de Quarentena” foi criado por nós músicos de Coimbra, que nos reunimos e o desenvolvemos. Hoje fazemos lives na página homóloga no Facebook, onde aceitamos doações e vendemos bolos caseiros feitos pela browneria Doce Amor, que faz os bolos e converte o lucro para nós. Agora também dou aulas, não era algo que pensasse em fazer, mas foi o que surgiu, e tem chegado alunos. Tenho tentado focar nisso.

Até o momento, quais são os prejuízos que você especula ter em relação ao ano passado, por exemplo?

Não sei mensurar, simplesmente. O que eu tenho na minha cabeça é que eu tenho que fazer com que não haja prejuízo. Eu acho que vai ter um prejuízo muito grande, até porque o Grupo do Beco, que tinha uma projeção muito grande, com três datas em cidades próximas, fez uma live ontem, que foi a primeira vez que nos reunimos desde o Carnaval. Eu não sei mensurar em perda, o quanto vai me dar, pois fazemos projetos no papel, mas eu mudei os meus planos. Do ponto de vista financeiro, uma perda enorme, não sei nem dizer quanto. Não estamos preparados para isso, que é um erro nosso da área da música, não estar preparado para lidar com outras coisas que não o real. Deste ponto de vista de planos, pessoal, não sei dizer. 

E agora, quais são seus planos?

Vou continuar na área da música, tentar produzir o máximo de conteúdo. Tenho falado com alguns amigos da área, que estão distantes mas podem fazer gravações. Tenho um projeto de gravar um EP meu, de músicas autorais, em casa. A minha ideia é sempre trabalhar na música, tem um homem que eu gosto muito que fala que “a gente não sabe explicar o porquê de gostar da música, tem que ter coração de músico”. É como uma mãe com um filho, você não pensa que tem que investir dinheiro para receber tanto de volta, ela vai lá e faz, e abraça. Eu, com a música, estou nessa. Vou seguir em Coimbra, gosto de estar em Portugal, e me possibilita estar em contato com pessoas que eu sou muito próximo, fiz amigos. O próprio grupo de samba me levou a experimentar uma sensação que até então não tinha sentido, de me sentir próximo, de ter união. Antes do grupo, tive crises de ansiedade, porque quando o financeiro aperta ficamos mal mesmo, todo o fim de mês é um problema, este mês foi um problema [também]. Não penso em parar com a música, vou trabalhar nos meus projetos. 

Você considera que o Governo tem dado auxílio suficiente para artistas? Se não, quais medidas você consideraria necessárias para manter a indústria?

O que o Governo fez aqui foi dar benefícios para quem tem, nos últimos 12 meses, três meses de obrigação contributiva. Mas a obrigatoriedade de contribuir aqui em Portugal só começa depois de um ano, para quem é trabalhador independente. Eu, como estava com o visto de estudante até fevereiro, fui tirar meu recibo verde, dei entrada na Segurança Social, mas não tenho 12 meses desta e nem três meses de obrigatoriedade contributiva. Isso foi uma maneira para não dar apoio a imigrantes que estão aqui há pouco tempo, que não estão contribuindo para a Segurança Social, que é meu caso. Eu não tive benefício nenhum com isso.

Quais são suas esperanças para a indústria quando a situação de Portugal normalizar?

Eu não sei até quando isso vai, creio que para continuar a trabalhar com aglomereações só para outubro, novembro. Também creio que, quando isso voltar, quem tiver trabalhado, se preparado e produzido mais, se conectado com o público, vai estar na frente. Estou trabalhando para isso, para que quando a situação se normalizar, as pessoas já me conheçam não pelo contato físico, mas pelo virtual.