A queda no cinema

Fonte: Variety
Fotografia: detalhe da capa da revista norte-americana Variety.

A revista norte-americana Variety, publicação mais importante sobre a indústria de produção cinematográfica no mundo, sentencia que a meca do cinema pode estar marcada para sempre após a pandemia Covid-19.

As jornalistas Cynthia Littleton e Elaine Low publicaram, esta semana, o artigo “Hollywood Braces for Coronavirus Financial Hit That Could Change the Industry Forever”, onde tratam da avalanche de cancelamentos de última hora e atrasos das estreias. Os eventos não só movem os motores comerciais da indústria, como também espelham o impacto da catástrofe da Covid-19 em Hollywood, que irá muito além de 2020.

Para a Variety, a indústria do entretenimento está enfrentando hoje três perguntas essenciais: quão doloroso será o número de paralisações para os trabalhadores mais mal pagos da indústria? Quão altas serão as perdas financeiras? E como a empresa lidará com o efeito dominó sem precedentes no calendário tradicional de Hollywood?

A revista ouviu altos executivos que dizem que “a única certeza no horizonte é que apenas os fortes sobreviverão às consequências”. Mundialmente, estima-se que o cinema deverá perder cerca de US$ 5 bilhões, segundo a revista Hollywood Reporter. Boa parte das perdas são consequência da queda do mercado chinês, que entre janeiro e o início de março fechou cerca de 70 mil salas.

As jornalistas concluem que, quando a ameaça aguda da pandemia inevitavelmente diminuir, o outro grande desafio para a indústria será reformular o calendário anual de prêmios, eventos e estreias para dar espaço a tudo o que foi introduzido na parte de trás deste ano e até 2021.

Cannes adiado

O Festival de Cannes, que acontece de 12 a 23 de maio, já foi adiado, dadas as restrições da multidão recentemente impostas pelo governo francês. “Estão a ser consideradas várias opções para que o festival se realize, a principal é o simples adiamento para o final de junho ou início de julho”, adiantou a organização.

A Variety ressalta que a incapacidade de prever quando as condições de trabalho podem retornar ao normal também significa que os estúdios não podem dar um salto nas datas de reagendamento das filmagens. Isso certamente levará a um período caótico de classificação dos horários de atores, produtores, produtores de espetáculos e inúmeros funcionários cruciais da produção.

Especialistas do setor prevêem que alguns projetos simplesmente serão descartados. Alguns filmes que estavam prestes a entrar nos cinemas provavelmente acabariam indo direto para as fitas. E alguns pilotos e séries de TV que foram abruptamente fechados não serão ressuscitados, pelo menos não imediatamente.

Brasil também prevê prejuízos

Do Brasil o roteirista e produtor audiovisual Roberto Faustino comenta ao Conceitual que tudo vai mudar de proporção, o mundo do cinema pós-Covid-19 terá menos filmes com menos recursos, valorização de roteiro, direção, direção de arte e iluminação e diz ainda que as soluções criativas serão, mais do que nunca, necessárias. “Toda a cadeia terá de se reajustar, não só os produtores. Uma rede de exibição em multiplex não poderá ficar com 50% da receita de bilheteria. Uma distribuidora não poderá mais ficar com 30% da arrecadação. E por aí vai. Um novo modelo de participação terá de ser criado. E estamos falando de algo sedimentado há décadas, cheio de vícios, margens de segurança, reservas de mercado e diversas camada de acomodação”.

Faustino ressalta ainda este novo cenário num país como o Brasil: – “Paralelo a isso, tem a definição (distante) do que a indústria significa para esse governo. Até agora, nada. Mas esse governo sob qualquer ponto de vista já não serve a sociedade brasileira. Então deverá ser removido do poder. Ou seja: parece não haver uma só carta no lugar. E precisamos de, pelo menos, sete delas nos lugares certos para formar uma canastra. Talvez um dos grandes desafios seja buscar uma solução entre distribuidores tradicionais e detentores de streaming”.

O produtor coloca também a hipótese das grandes estreias acontecerem diretamente para o público que está em casa e isso criar um novo valor na cadeia: – “Mas também precisamos garantir e valorizar as salas de exibição. Mudar a dinâmica. Criar linha de ingressos por grupos, criar marketing que estimule a audiência coletiva nos cinemas. Mas para tudo isso será necessário sentar na mesma mesa com simplicidade e sem nariz em pé. E isso continua sendo o mais difícil’, arremata Roberto.