A UC sob o coronavírus

A cabra, torre da UC, sob nuvens de incerteza. Foto: Notícias de Coimbra.

Todas as atividades letivas da Universidade de Coimbra estão suspensas e os alunos e professores tentam agora dar continuidade ao ensino através de ferramentas digitais.

Faltavam 4 minutos para as dez da noite da segunda-feira, 9 de março, quando as caixas de e-mails dos estudantes da Universidade de Coimbra receberam o aviso da Reitoria: “Estão suspensas por duas semanas todas as atividades letivas na UC de forma a implementar medidas preventivas para contenção da propagação de COVID-19”. O reitor Amílcar Falcão avisava ainda que estavam igualmente suspensos todos os eventos científicos, culturais e desportivos, assim como as atividades em bibliotecas e salas de estudo, o circuito turístico, a visita a museus e a utilização das infraestruturas culturais e desportivas – designadamente o Estádio Universitário de Coimbra e o Teatro Académico de Gil Vicente. Imediatamente a notícia correu pelas redes sociais em mensagens e publicações carregadas de interrogações, ninguém lembrava de algo parecido na história da Universidade.

Foi lançada uma linha de apoio emocional para ajudar a comunidade académica a adotar estratégias de gestão de ansiedade, face à pandemia. A linha “Ucare” foi criada pelos Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra e terá atendimento à distância assegurado por uma equipa de psicólogas. Membros da comunidade universitária interessados devem enviar e-mail para ucare@uc.pt.

Nesta quarta-feira, 18 de março, o reitor suspendeu o restante de toda a atividade presencial, com exceção da manutenção e vigilância dos edifícios, atividades de suporte e de apoio ao ensino à distância e ao teletrabalho, a manutenção de equipamentos, e os serviços de apoio social indispensáveis, nomeadamente alojamento e alimentação.

Depois de todas estas mudanças drásticas, a comunidade académica se fechou em casa e iniciou um processo de ensino à distância, para minimizar potenciais impactos pedagógicos. Entretanto as ferramentas disponibilizadas em plataformas online ainda precisarão de muitos ajustes para que o restante do ano letivo siga seu caminho.

“Teremos que aprender a pensar de forma diferente”

O Conceitual ouviu alguns professores e alunos sobre o impacto desta suspensão – que já não tem data certa para terminar. Para o Professor Paulo Gama Mota, atualmente no Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, esta situação é única: – “Nunca vivemos nada do género, por isso vamos ter que inventar. Não haverá perda do semestre mas as formas de ensino e aprendizagem vão ter que ser diferentes. Vídeos de aulas parece-me uma má opção. As aulas são um processo interativo ou deviam ser. Disponibilizar PPT também não serve: os meus são intencionalmente sem texto; são mesmo um apoio visual da aula. Aqui há que assumir que é a aprendizagem que está em causa, não um tic no ‘dei aula’. Teremos que procurar formas de aprendizagem guiada a distância, com quiz, perguntas de pesquisa aos alunos e interação via grupos de discussão online, para esclarecer. A dificuldade está no acesso a bibliografia, as bibliotecas (mal equipadas e desactualizadas) da UC não estão abertas. A UC não está parada, mas quase”.

Na sua conta do Facebook, Gama Mota tem dito que estamos a lidar com um causador de uma doença que não tem objectivos (que não sejam produzir mais cópias de si), nem propósitos (simplesmente existe), ao qual possamos atribuir intencionalidade (que não tem): – “Esta falta de sentido de uma pandemia viral gera um vazio. Como combater um inimigo que não tem objectivos, propósitos? A nossa mente e a nossa cultura, as nossas culturas, não estão preparadas para isso. Teremos que aprender a pensar de forma diferente”.

Cláudia Duarte é moçambicana e está no segundo ano do Curso de Direito da UC e vive na residência universitária Lar Teresiano no bairro de Celas, em Coimbra, com mais 28 estudantes. Cláudia não pode ainda voltar para a casa dos pais pois esteve em Moçambique no natal passado e agora não tem condições financeiras: – “Meu orçamento é pensado para não dar maiores preocupações aos meus pais que me mantém com certa dificuldade. Vou esperar mais um pouco, tenho esperanças que em abril tudo já esteja normalizado”, comenta.

Finalista de Jornalismo e Comunicação na UC, Tayssa Larrubia veio do município brasileiro de Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, há dois anos e meio. Na semana da suspensão das aulas Thayssa retornou ao Brasil a pedido dos pais: – “A situação está bem crítica e é completamente errado falar que é só uma gripe… só volto na Páscoa para Portugal mas enviei e-mail para os professores que foram muito solícitos comigo para chegar num acordo mútuo mas que não me prejudicasse no último semestre da faculdade… Eu estou me sentindo muito estranha, sinceramente! Nunca imaginei viver uma situação parecida como essa e ter que tomar uma decisão assim de uma dia pro outro não foi uma das melhores experiências”, relata a estudante. Para ela a Universidade agiu corretamente cancelando as atividades na segunda semana de março e acha errado muitos colegas ainda se portarem como se de férias estivessem. Thayssa está esperançosa: – “Minha expectativa é que até a semana santa toda a situação no mundo já esteja mais contida para que eu possa voltar para Portugal e todas as pessoas para sua vida normal”.

Fugir do vírus, frenar o sonho

A meio de um intercâmbio na Universidade de Bolonha, em Itália, o brasileiro Leonardo Portilho que cursa Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Brasil, precisou desistir dos estudos: – “O coronavírus encurtou meu intercâmbio… cheguei na Itália em dezembro e ficaria até 31 de julho. Mas em março tudo mudou. Meus pais pediram para eu voltar ao Rio de Janeiro mas eu disse que não. Me sinto frustrado e com raiva, trabalho desde a época do colégio, juntando dinheiro e correndo atrás do meu sonho, agora esse sonho foi inviabilizado por causa de um vírus. Sei que o meu problema é insignificante diante de um cenário calamitoso como esse, mas é isso, sinto frustração. Parte de mim acha que isso tudo vai durar dois meses no máximo, que vou poder voltar a ter aulas em abril. A outra parte sabe que não vai ser assim e que é bem provável que eu não tenha mais aulas presenciais ou, se tiver, elas vão acontecer numa época que eu esperava já não ter mais aulas. Então fugi da quarentena italiana e fui para a França. No primeiro momento pensei em viajar pela Itália, mas percebi que se fechassem Bologna enquanto eu estivesse viajando, ia ficar preso num lugar onde não tenho casa. Decidi então viajar para um lugar onde teria lugar para ficar, fui para Lyon, porque a minha namorada mora lá. Enfim, acabou que não fecharam Bologna, fecharam a Itália inteira. Se França fechar as fronteiras, vou tentar ir para Portugal, para o apartamento dos meus avós em Monção. Vou literalmente esperar a vida toda, até que isso passe”, diz Leonardo.

(Com Giovanna Carvalho)