A vacina da varíola e os 22 órfãos

Navio María Pita, usado na expedição. Litografia de Francisco Pérez.

A vacina contra a varíola não chegou às Américas em tubos de ensaio, mas nos corpos de 22 crianças galegas, vindas de orfanatos, que cruzaram o Atlântico no início do século 19.

Em busca do segredo da primeira vacina da humanidade, que erradicou a varíola, encontramos a história da Expedição Real de Vacinas Filantrópicas, mais conhecida como Expedição de Balmis, que durou de 1803 a 1806. Promovida por Carlos IV para combater a doença nos territórios ultramarinos, acabou se tornando uma das expedições científicas mais bem-sucedidas de todos os tempos.

Os anos da Revolução Francesa estavam em andamento, e uma doença se espalhava entre a população: a varíola. Edward Jenner, médico inglês, descobriu que os agricultores que ordenhavam vacas costumavam pegar uma variedade leve de varíola transmitida pelos animais. A ideia de Jenner era que, ao inocular a varíola leve, evitaria a variante mortal. Seus colegas se opuseram, mas o médico inoculou o vírus da varíola em várias crianças e em seu próprio filho. Nenhum dos pacientes morreu, nem contraiu varíola em tempos de epidemia. Jenner criou a primeira vacina na história.

A varíola só foi erradicada do planeta oficialmente em 1977, mas até Jenner descobrir a vacina, a doença matou milhões de pessoas na Europa, e foi trazida para a América pelos conquistadores espanhóis, dizimando a população nativa. Estima-se que entre 1560 e 1640, a doença matou 25 milhões de povos ultramarinos.

Foi assim que as colónias pediram ajuda ao rei espanhol Carlos IV, uma vez que levar a vacina para a América atravessando o Atlântico se tornou uma missão impossível, pois sempre chegava degradada. Era um desafio que ninguém conseguia resolver.

Francisco Javier de Balmis e Berenguer, cirurgião real, resolveu usar corpos vivos como portadores da vacina para a América. O problema era encontrar voluntários dispostos a fazer esse experimento, então ele teve que recorrer a crianças órfãs. Balmis levou cinco crianças de Madri para levar a vacina para a Corunha e, uma vez lá, selecionou os restantes “transportadores” num orfanato local. Todas as crianças viajaram acompanhadas de Isabel Zendal Gómez, diretora do orfanato que se recusou a deixar os meninos sozinhos na viagem.

Foi assim que, em 30 de novembro de 1803, a Expedição Real de Vacinas Filantrópicas partiu do porto de Corunha para os territórios ultramarinos, a bordo da corveta María Pita, com 15 adultos e 22 crianças.

Estima-se que mais de 500 mil pessoas foram vacinadas diretamente pela Expedição Balmis, e que milhões de pessoas foram salvas graças à ideia e coragem de todos os envolvidos.

Pintura de Constant-Joseph Desbordes “La vacunación contra la viruela”

(Fonte: Quincemil)