Centenas de pegadas fossilizadas encontradas na Tanzânia

O sítio de pegadas Engare Sero. Uma erupção do vulcão Oldoinyo L’engai (ao fundo da foto) misturou a lava à água de um lago, gerando a lama na qual as pegadas ficaram preservadas. Foto: Cynthia Liutkus-Pierce
O sítio de pegadas Engare Sero. Uma erupção do vulcão Oldoinyo L’engai (ao fundo da foto) misturou a lava à água de um lago, gerando a lama na qual as pegadas ficaram preservadas. Foto: Cynthia Liutkus-Pierce

Foram cerca de 400 pegadas descobertas, categorizando a maior coleção de rastros desse tipo já encontrada no continente africano. 

Um total de 408 pegadas foram descobertas e analisadas por pesquisadores da Universidade de Chatham, nos Estados Unidos da América. O achado pode ajudar pesquisadores a analisar melhor e decifrar comportamentos dos seres humanos pré-históricos. O conjunto de rastros foi encontrado em Egaro Sero, no norte da Tanzânia. 

Os pesquisadores não forneceram uma data de origem exata dos rastros, mas afirmam que têm entre 5.760 e 19.100 anos de idade. Acredita-se que as pegadas ficaram preservadas durante esse tempo pois a erupção de um vulcão na região teria feito com que a lava expelida se misturasse com água proveniente da enchente de um lago. Essa combinação teria gerado uma lama que, com o passar do tempo, endureceu como cimento, preservando a trilha dos humanos que por lá passaram. 

“As pegadas fósseis de hominídeos preservam dados numa escala de tempo notavelmente curta em comparação com a maioria das outras evidências fósseis, oferecendo retratos instantâneos de seus contextos ecológicos e comportamentais”, lê-se no artigo publicado na revista Nature.

Uma das pegadas encontradas em Engaro Sero, na Tanzânia. Foto: William Harcourt-Smith
Uma das pegadas encontradas em Engaro Sero, na Tanzânia.
Fotografia: William Harcourt-Smith

O biólogo Kevin Hatala, arqueólogo responsável por liderar o estudo, afirma que todas as pegadas foram deixadas por humanos descalços. Dessa forma, é possível ver facilmente as impressões individuais dos dedos dos pés nas marcas produzidas. Analisando o tamanho das pegadas, sua orientação e a distância existente entre elas, os pesquisadores traçaram caminhos individuais. Além disso, essas diferentes medidas permitiram que os cientistas estimassem a velocidade em que cada indivíduo caminhava, o tamanho dos corpos e, inclusive, o sexo de cada um. 

No total, os pesquisadores concluíram que as pegadas encontradas fazem parte de duas cenas diferentes: uma envolve 17 pessoas, a outra tem um número indeterminado de participantes.

O grupo de 17 indivíduos, de acordo com o estudo, era constituído por 14 mulheres adultas, dois homens adultos e um jovem adulto. Para estimar o sexo e a idade dos donos das pegadas, os tamanhos das marcas foram comparadas com medidas de pés dos seres humanos atuais. Apesar de não ser um método totalmente preciso, ele possibilita um cálculo sobre a probabilidade da pegada em questão ter pertencido a alguém de certa idade ou sexo. 

Desta forma, de acordo com o Gizmodo, Hatala afirma que podem existir cenários alternativos sobre a composição do grupo, e também sobre a atividade que as pessoas nele estavam a exercer. 

“Por exemplo, é difícil diferenciar uma pegada de um adulto pequeno da pegada de um adolescente. Talvez alguns membros do grupo que nós estimamos serem mulheres adultas fossem na realidade adolescentes de diversos sexos”, explica o arqueólogo. “Essa composição de grupo poderia ter implicações comportamentais muito diferentes. De qualquer forma, o padrão que nós estimamos é intrigante, e nós esperamos que esse estudo destaque o potencial da utilidade de pegadas fossilizadas para identificar padrões comportamentais no arquivo de fósseis.”

Mapa da coleção de pegadas preservadas em Engare Sero. Pegadas ligadas ao mesmo caminho são indicadas pela mesma cor. Fonte: K. G. Hatala et al., 2020/Scientific Reports
Mapa da coleção de pegadas preservadas em Engare Sero. Pegadas ligadas ao mesmo caminho são indicadas pela mesma cor. Fonte: K. G. Hatala et al., 2020/Scientific Reports

O outro grupo de pegada, documentado no artigo, envolve um total de seis caminhos diferentes, com indivíduos seguindo em direções opostas. Quanto à velocidade, alguns dos envolvidos estavam a correr, outros a caminhar. Devido a essas diferenças, é improvável, conclui-se no estudo, que um só grupo de pessoas tenha sido responsável por esses rastros.

Os autores do artigo sugerem que uma possível atividade que tenha levado esses seres humanos a caminharem na região foi a busca por comida. “Esse tipo de prática entre humanos é única entre os primatas, pois tipicamente se alimentam juntos e dividem o trabalho entre os sexos”, explicam. “Em grupos humanos modernos, fêmeas adultas forragearão cooperativamente, com visitas ocasionais ou acompanhamento de homens adultos.”

Isso explicaria, também, a falta de pegadas de crianças. Se a área fosse dedicada, principalmente, à coleta de alimentos, isso não seria surpreendente, já que esta é uma tarefa que costumava ser realizada por pessoas mais velhas. Os autores explicam que, com a exceção dos bebés, que eram provavelmente carregados, as crianças eram “tipicamente excluídas desses tipos de atividades de forragem em grupo e deixadas no acampamento”.