Como a pandemia está agravando as disparidades de género na ciência

Leslie Gonzales, Einat Lev e Erica Williams. Ilustração da revista Lily.

A revista Lily, do Washington Post, conversou com algumas pesquisadoras e editores em revistas científicas e descobriu que as mulheres, sob confinamento, estão a submeter menos artigos que homens.

É normal que se pense: sob pandemia, de um modo geral, todo mundo está sendo afetado. No entanto, os homens académicos estão enviando até 50% a mais do que costumam fazer e o número de artigos científicos submetidos por mulheres está caindo.

A jornalista Caroline Kitchener, editora na revista Lily, do jornal norte-americano Washington Post, ouviu várias cientistas e editores de publicações académicas para entender o fenómeno.

Seis semanas depois da ampla quarentena para muitos académicos, os editores de revistas científicas começaram a perceber uma tendência: as mulheres – que (geralmente) assumem mais responsabilidades familiares – estão enviando menos artigos do que o habitual e isso pode ter um grande impacto sobre a carreira feminina na academia.

Homens com filhos também são afetados. No entanto é preciso observar que as mulheres tendem a usar o tempo em casa principalmente – e quase que exclusivamente, para cuidar de crianças e afazeres domésticos. Os homens “encontram uma maneira” de realizar mais trabalhos acadêmicos.

Kitchener conversou com algumas acadêmicas que estão adiando as metas de carreira porque precisam cuidar de seus filhos durante o coronavírus. Einat Lev planejava fazer um trabalho de campo no Havaí e no Alasca, enviar uma proposta de pesquisa importante e depois terminar de escrever o último dos cinco trabalhos necessários para se tornar uma professora de sismologia na Columbia University. Agora, com sua filha de 7 anos em casa, Lev só pode trabalhar quatro horas por dia, em vez das 10 habituais.

Foi então que ela ouviu de um colega do sexo masculino (e eles começaram suas carreiras na mesma época) que sua esposa cuidava dos filhos em período integral e que estava sobrando tempo para ele se concentrar na escrita. Lev quis gritar: “Isso parece um luxo! Eu não posso nem imaginar”, disse para a reportagem.

Leslie Gonzales, professora de administração educacional da Michigan State University, se concentra em estratégias para diversificar o campo acadêmico e questiona: “quando as instituições decidirem a quem conceder títulos académicos, levarão em conta as realizações do candidato feitas durante a pandemia? Não queremos que um comité analise a produtividade externa de um homem branco hetero com uma esposa em casa e diga: ‘Bem, essa pessoa conseguiu’ Não queremos fazer disso nossa referência”, diz Gonzales.

A astrofísica é um campo em que a Covid-19 parece ter um efeito desproporcional nas submissões académicas, diz Andy Casey, pesquisador de astrofísica da Universidade Monash, que analisou o número de envios nesta área. Para o The Lily, Casey comparou dados de janeiro a abril de 2020 com o mesmo período dos anos anteriores, e observou “até 50% mais perda de produtividade entre as mulheres”.

Editores em outros campos notaram a mesma coisa. Elizabeth Hannon, editora adjunta do British Journal for the Philosophy of Science, disse que os números eram diferentes de tudo que ela já havia visto antes.

Capa da edição de março do British Journal for the Philosophy of Science

Enquanto a Comparative Political Studies, uma revista que publica 14 vezes por ano, recebeu o mesmo número de inscrições de mulheres este ano e no ano passado, o número de inscrições de homens aumentou mais de 50%, de acordo com o co-editor David Samuels.

A reportagem termina com mais uma referência à Einat Lev, a professora de sismologia. Para ela se homens e mulheres estão em casa, os homens sempre encontram uma maneira de realizar mais trabalhos académicos: “A escrita e a pesquisa académica exigem tempo e espaço para respirar e ser criativo, não é algo que você possa fazer de maneira adequada. Tenho medo que no futuro um grupo de revisores de artigos analisem meu portfólio e digam ‘Você ficou em casa por tantos meses, por que não escreveu mais?'”.

Lev começou a acompanhar seus dias, anotando quantas horas ela passa com sua filha e quantas horas ela consegue trabalhar: “Se alguém disser que não fui ‘produtiva’ durante o coronavírus, terei meus registos para provar que estão errados.”

Einat Lev é professora de sismologia na Columbia University. Fonte: The Lily.