Covid-19: A realidade da procura pelo tratamento

Fotografia: Shutterstock
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Nas passadas semanas, os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil reforçaram o uso da cloroquina como possível tratamento para o novo coronavírus. Mas o que é que realmente se sabe até agora e quais os rumos que a investigação pode tomar?

O estudo de que falam os chefes de Estado realmente existe, mas a sua pequena dimensão não garante a fiabilidade do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, declara o New York Times.

O artigo, assim como outras publicações sobre o novo coronavírus, foi publicado no medRxiv antes de passar pelas revisões por pares. Este é um dos passos obrigatórios para a publicação de conteúdo científico em revistas de referência, como a LancetNature, ou Science. Já a plataforma utilizada é um servidor online para artigos científicos sobre medicina e saúde.

Segundo os autores do artigo, citados pelo jornal estadunidense, a medicação era promissora, mas insuficiente para explicar como pode funcionar no tratamento da Covid-19. Mais investigação é ainda requerida para delinear a melhor forma de a utilizar.

William Schaffner, especialista em Infeciologia da Universidade Vanderbilt, a notícia de um possível tratamento “vai mandar uma onda de entusiasmo” na comunidade médica. Citado pelo New York Times, o infeciologista acredita que isto pode “reforçar a inclinação de muitas pessoas em todo o país que não estão em posição de colocar um dos seus pacientes em estudos clínicos, mas que já começaram o tratamento”.

A cloroquina e a hidroxicloroquina já tinham sido apontadas como possível remédio contra o novo coronavírus em estudos publicados na China e na França. No entanto, avança o jornal, cientistas chamaram os informes “anedotas” pela falta de grupos de controlo sem os quais é impossível determinar se as drogas realmente funcionavam.

Novo vírus, velhas ideias

A ideia de se usar a cloroquina não é nova. Em 2002, com o surgimento da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, na sigla em inglês), alguns artigos concluíam que o fármaco seria um “potente inibidor” da infeção e disseminação do vírus, conta o Público. Uma vez que os dois vírus são similares, a fármaco foi visto como promissor no tratamento.

A adaptação de um fármaco já existente e aprovado pelos reguladores traz algumas vantagens. A primeira é o facto de a etapa de estudos sobre a segurança do medicamento já se ter concluído, pelo que o tempo de aprovação seria reduzido.

A segunda vantagem é a possibilidade de os médicos solicitarem autorizações para o seu uso off-label, uma opção que, segundo o Público, existe somente para casos de doentes que corram risco de morte, não havendo outras opções disponíveis.

O que diz o Infarmed?

A Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed) garantiu, em comunicado de imprensa publicado na última terça-feira, que “nenhum medicamento se demonstrou ainda eficaz no tratamento da Covid-19”. Existem, no entanto, vários estudos relativos a potenciais tratamentos.

Para além da cloroquina e da hidroxicloroquina, o Infarmed aponta quatro outros medicamentos que estão sob investigação. São eles o remdesivir, medicamento experimental criado durante o surto de ébola; os antirretrovirais lopinavir e ritonavir, usados no tratamento de portadores de VIH; interferões sistémicos, autorizados para o tratamento da esclerose múltipla; e anticorpos monoclonais, que influem no sistema imunitário.

O Infarmed tem-se mantido em articulação permanente com a Agência Europeia do Medicamento (EMA) e sublinhou a importância da “sinergia de esforços, cooperação internacional e medidas de suporte para as empresas”.

A elaboração de uma vacina também está no topo das prioridades na luta contra a pandemia. “Estão já a decorrer ensaios clínicos de fase I para duas vacinas”, adianta. Isto significa que os testes estão a decorrer com voluntários saudáveis. No entanto, a aprovação deve demorar pelo menos um ano.

O comunicado do Infarmed segue a publicação de um comunicado pela EMA. A agência europeia está a acompanhar, segundo o comunicado, diversas empresas no “desenvolvimento de cerca de 40 opções terapêuticas”.