Entre contradições, Remdesivir pode trazer novas esperanças

Fotografia: Ulrich Perrey/New York Times
Fotografia: Ulrich Perrey/New York Times

Novos estudos sobre o uso do Remdesivir contra o novo coronavírus demonstraram resultados contrastantes sobre a sua eficácia. Ainda assim, a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos EUA deve emitir uma autorização de emergência para o seu uso.

O medicamento foi desenvolvido pela Gilead Sciences em 2015, durante o surto do ébola, como um possível tratamento para a doença. Mostrou-se ineficaz nos ensaios clínicos, mas, posteriormente, análises in vitro demonstraram a sua eficácia contra outros diversos vírus, dentre os quais, os coronavírus.

É ainda experimental e um dos mais promissores fármacos para o tratamento dos pacientes com a Covid-19. O medicamento tem uma atividade antiviral de amplo espetro.

Segundo um artigo de fevereiro deste ano, publicado no Journal of Biological Chemistry, o Remdesivir funciona como inibidor de uma enzima (RNA polimerase) necessária para a replicação do vírus dentro das células. No entanto, o medicamento ainda não foi aprovado para uso humano em nenhum país.

O primeiro estudo

O primeiro ensaio clínico sobre a eficácia do antiviral contra o SARS-CoV-2, causador da presente pandemia, teve lugar em Wuhan, primeiro foco da epidemia, na China. Segundo os autores do estudo, publicado esta quarta-feira na revista The Lancet, o medicamento não demonstrou melhoras significativas.

Dentre os pacientes que participaram do estudo e cujo tratamento começou até dez dias após o aparecimento dos sintomas, o tempo médio de melhora clínica foi menor do que aqueles que não foram submetidos ao tratamento experimental. No entanto, segundo o artigo, os dados não tinham relevância estatística. Outros ensaios individuais já apontavam para um potencial benefício no tratamento de casos severos.

A amostra era pequena: cerca de 240 pessoas adultas internadas em estado grave. Dentre os pacientes, 158 foram medicados com o fármaco da Gilead Sciences, enquanto os restantes 79 receberam placebo. O regime de tratamento durou dez dias, sendo que a primeira dose era de 200 miligramas, seguidos de 100 miligramas por dia, nos outros nove dias.

O ensaio que reavivou os ânimos

No mesmo dia em que o estudo era publicado pela renomada revista médica, o diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infeciosas dos EUA (NIAID, na sigla em inglês), Anthony Fauci, anunciou os resultados do maior ensaio clínico já realizado sobre o remédio.  Os pacientes que passaram pelo tratamento com Remdesivir conseguiram recuperar 4 dias mais depressa, em média, do que aqueles que receberam em placebo.

“Apesar de uma melhora de 31% não parecer um knockout a 100%, trata-se de uma importante validação do conceito”, declarou Fauci. O ensaio incluía mais de mil pessoas internadas em hospitais de 75 países ao redor do mundo.

O grupo que recebeu o fármaco teve menos mortes, mas os resultados não têm relevância estatística, segundo o diretor do NIAID. No entanto, conforme explicou Fauci, este não foi um critério objetivo usado no ensaio.

Este ensaio clínico ainda deve passar por revisão por pares para ser, posteriormente, publicado em revista científica. Segundo o New York Times, a FDA deve conceder uma aprovação emergencial ao medicamento.