Fechamento de fronteiras deixa turistas retidos

Fotografia: Johan Ordonez/AFP via Getty Images
Fotografia: Johan Ordonez/AFP via Getty Images

As medidas cautelares adotadas por diversos governos deixaram turistas desamparados nos países que visitavam. Ricardo Zamboni, brasileiro na Argentina, declarou que chegou a ser convidado a se retirar de uma cidade.

A decisão do presidente brasileiro Jair Bolsonaro de fechar as fronteiras com oito países devido ao surto da Covid-19, aplicada no último dia 19, fez com que pessoas que estavam em outras nações se encontrassem em uma situação complexa. Em diversos lugares do mundo a circunstância se repetiu, como na Ásia, em que companhias aéreas cancelaram voos devido às medidas tomadas no continente e na Europa.

Ricardo Zamboni, funcionário público do estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, é uma das pessoas que se encontrou desamparada por causa da decisão de fechamento de fronteiras, tanto pelo lado brasileiro quanto pelo argentino. Em meio a uma viagem com seu grupo de motociclistas, que atravessariam a Argentina a partir da cidade de Mendoza até o estado de origem, acabaram por ter suas reservas em hotéis canceladas e foram colocados em quarentena.

O grupo de motociclistas está agora em quarentena. Fotografia gentilmente cedida por Ricardo Zamboni.
Entrevista com Ricardo Zamboni

O grupo, que agora se encontra em Córdoba, foi acolhido por um hotel que está fechado ao público, e permanecem em isolamento. “Fomos abordados e informados que deveríamos fazer a quarentena por 14 dias”, declara Zamboni. O funcionário público conta que o grupo esteve em La Playosa anteriormente, acolhidos por um hotel na estrada, mas “as pessoas da cidade, quando viram o movimento de pessoas estrangeiras, chamaram a polícia, que disse que tínhamos que nos retirar da cidade”.

A situação piorou quando, de acordo com Zamboni, os hotéis que tinham reservas as cancelaram, pois foram instruídos a não receber mais estrangeiros. Zamboni explica que “todas as cidades estão fechando o comércio para evitar a propagação do vírus”, e complementa que “talvez as medidas tivessem de ser tomadas antes”.

O funcionário público declara que o grupo tentou “retornar o mais breve possível [na época em que os governos iniciaram a tomada de medidas], sabendo que a situação estava se agravando”, e que agora “a intenção é retornarmos assim que possível ao Brasil”.

A situação no mundo

Os aeroportos têm sido o abrigo de turistas por todo o mundo após decretado o estado de pandemia pela Organização Mundial da Saúde, no dia 11 de março.

Em Kuala Lampur, na Malásia, 16 turistas estão retidos no Aerporto Internacional da cidade. De acordo com o jornal Al Jazeera, a entrada dessas pessoas foi recusada em outros países asiáticos, aos quais se destinavam.

Em entrevista ao jornal, a russa Val Azure, que estava se voluntariando em um centro comunitário afegão, teve sua saída negada após decidir voltar para sua casa, na Tailândia. “Eu decidi voltar antes que as coisas piorassem, reservei passagens com a AirAsia e consegui certificados de saúde, além de um seguro”, afirma a voluntária.

Val Azure e o filho. Fotografia: Val Azure/Al Jazeera

Mesmo tomando essas precauções, Azure e o filho foram instruídos a permanecer no país. A voluntária declara que “havia diversos soldados com armas e também médicos. Nós mostramos nossos certificados de saúde e o seguro, mas eles disseram que não era o suficiente. Disseram que também precisávamos de resultados de testes sanguíneos”.

Na África do Sul, mais de 200 brasileiros aguardam para voltar ao país de origem, depois de ter sido anunciado o confinamento total do território por 21 dias a partir da última quinta-feira, 26 de março. Em declaração ao jornal El País Brasil, a psicóloga brasileira Luciana Gaudio Martins afirmou que, após ter sido retida em Joanesburgo, foi acomodada pela companhia aérea em um hotel próximo ao aeroporto, com outros 80 brasileiros na mesma situação.

“Estamos vivendo uma apreensão diária, cada um chorando num canto do hotel”, esclarece a psicóloga. Martins ainda afirma que “existe muito desencontro de informações por parte da [companhia aérea] Latam. A única coisa certa é que eles não têm certeza de nada.” Apesar de ter o voo remarcado para dia 31 deste mês, a psicóloga teme que ele seja novamente cancelado.

No último domingo, 29 de março, Bolsonaro declarou que cogita cancelar as medidas cautelares e permitir que os trabalhadores voltem aos seus ofícios. De acordo com o presidente, a atual paralisação está a causar um impacto na economia que pode afetar o desemprego no país, afirmando que “estou com vontade de baixar um decreto: toda e qualquer profissão legalmente existente, ou aquela voltada para a informalidade, mas que for necessária para o sustento dos seus filhos, para levar o leite para eles, levar arroz e feijão para a sua casa, vai poder trabalhar”. A decisão pode afetar, também, outras medidas restritivas adotadas pelos estados.