Riscos acrescidos de burnout afetam os professores

Fonte: Globo

Vários docentes queixam-se de horas de trabalho alargadas, apenas parando quando o sol já se pôs. Os riscos de esgotamento atingem níveis altos no setor do ensino, e alguns até admitem querer desistir.

A pandemia tirou os professores das escolas e obrigou a fazer adaptações para continuar as aulas em tempo recorde. A aproximação às tecnologias outrora distantes, os horários redobrados e o olhar mais vigilante dos pais exercem pressão sobre os profissionais. Agora, as aulas são online e Filinto Lima, dirigente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, diz que “se já se falava em burnout, é previsível que o stress e a exaustão estejam agora a níveis mais elevados”, nesta reportagem do Diário de Notícias.

Nestas últimas semanas, as solicitações de atestados psicológicos e psiquiátricos são inúmeras – não se conseguem quantificar. A Associação Nacional de Professores considera haver “um grave risco de aumento”, em comparação com o que é expetável todos os anos. Este é um problema para os quais os sindicatos já tinham alertado, devido ao “aumento brutal” do trabalho destes profissionais. O Sindicato de Todos os Professores alertou para o facto de “muitos docentes estarem ainda mais perto da exaustão”, neste contexto de pandemia.

O trabalho dos docentes excede o do contrato

Paula Nunes é professora do 3º ano do 1º ciclo na Maia, e a repetição de crises desde os 15 anos confirmaram o diagnóstico: sofre de depressão crónica. A professora de 53 anos diz que, com o tempo e os desafios da profissão que escolheu, a doença “tem vindo a agravar-se”. Ainda mais desde que a pandemia a obrigou a transformar a forma de exercer. “Nos dias mais difíceis”, a ideia de desistir cruza a sua mente. A professora tentou começar as aulas online com o mesmo formato de 90 minutos, tal como no presencial.

No entanto, apercebeu-se que o tempo de aulas era excessivo para manter crianças tão novas atentas, durante a sua duração – “uma coisa é estar com os alunos, outra é estar à distância, enquanto tudo acontece à volta deles”. A professora explica que, para além das aulas, tenta esclarecer as dúvidas de cada aluno um a um, depois tem os trabalhos para corrigir. Quase sem se aperceber, gasta um dia inteiro em frente ao computador. Começa de manhã e só acaba quando o sol de põe.

De forma a aproveitar melhor o tempo, as aulas são agora de 45 minutos. Ainda assim, diz que os horários continuam muito longe dos horários previstos pela lei e pelo contrato. Após as aulas com maior parte da turma, a professora dedica-se ao único aluno que tem com deficiência e “precisa de um apoio extra”. Nunes afirma que “era fácil acompanhá-lo com os restantes”, mas que agora a tarefa tem sido mais árdua. “Testámos no início, mas funcionou muito mal”, explica a docente.