Setor cultural enfrenta dificuldades durante a pandemia

Fotografia: TAGV
Fotografia: TAGV

A crise que a indústria artística enfrenta tem levado governos a darem subsídios à classe. Fernando Matos Oliveira, diretor do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), comenta quais são as expetativas e como que o setor cultural tem lidado com a situação.

Fotografia: perfil do Facebook de Fernando Oliveira

Inaugurado em 1961, o TAGV é o único edifício teatral do país, sendo parte da Universidade de Coimbra (UC), que conta com produções internacionais e nacionais, para além de iniciativas próprias que convidam o público a participar. Desde o início de março, o teatro tem os espetáculos suspensos, e para além de ter que lidar hoje com os pedidos de reembolsos referentes às apresentações em hiato, o espaço ainda não tem uma data definida de abertura.

Oliveira declarou ao Conceitual que o impacto dos cancelamentos foi grande para a indústria da cultura, sublinhando que embora haja atividades culturais que não precisam ser ao vivo, as que necessitam de presença física, como artes performativas, teatro e concertos, foram afetadas na época em que há um maior número de espetáculos.

Devido às dificuldades financeiras que os artistas passaram a ter, Oliveira lembra que a diferença de apoio governamental a esses trabalhadores também é distinta entre os países. O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou hoje que vai passar a ouvir o setor da cultura, de acordo com o jornal Público, enquanto nações como a Alemanha já liberaram 54 bilhões de euros para ajuda à área das artes. O diretor do TAGV ainda sublinha que há uma inconstância na previsão da reabertura de teatros, e que as normas para mantê-los em funcionamento ainda não foram estipuladas.

O projeto de lei do Bloco de Esquerda, aprovado no início do mês e que prevê o pagamento de 50% do valor acordado de serviço artísticos mesmo tendo sido cancelados, melhorou as condições negativas do setor, de acordo com Oliveira. Contando com 100 mil pessoas em Portugal, o diretor do TAGV declara que a atividade cultural é representativa do país, e explica que as discussões sobre a volta das atividades abrangem “uma desaceleração em processos de trabalho e relações interpessoais”, e que a opção da iniciativa online se mostrou questionável no meio.

A produção do sentido das obras ao vivo, segundo Oliveira, não pode ser substituída pela plataforma online. De acordo com o diretor do TAGV, “por um lado [a internet] permitiu clarificar domínios que o virtual de facto mostrou que podemos dar um passo adiante e que impeçam viagens maciças”, mas as Artes têm uma dimensão que exige a presença do público em contacto com a performance.

Com uma média de 300 eventos públicos por ano, o TAGV foi afetado pela devolução em massa dos ingressos. Entretanto, Oliveira afirma que houve espetadores que não pediram a devolução do dinheiro para assim ajudar o setor, e complementa que o teatro está a fazer um esforço para redistribuir os eventos já marcados. O diretor do TAGV acrescenta que, para além dos aspetos logísticos da remarcação de eventos, há a questão psicológica das audiências.

As atividades voltadas aos estudantes da UC também foram modificadas, sendo que os alunos das Artes não vão ter novos eventos previstos até setembro. Os trabalhos voltados para pequenos grupos de mestrandos e doutorandos, que envolvem pesquisas, podem regressar em maio, de acordo com Oliveira.

Oliveira afirma que, apesar do Governo ter providenciado algumas alternativas à crise do setor cultural, as tentativas “são insuficientes e estão pouco coordenadas, no sentido de se encontrar uma resposta mais capaz de se articular com a situação efetiva das pessoas”. O diretor ainda lembra que há artistas que trabalham a recibos verdes, e que podem se encontrar em situações complicadas com a instabilidade do setor.

Confira a entrevista completa: