Trabalhadores e imigrantes sofrem com medidas governamentais

Venezuelanos voltam ao seu país de Bogotá, Colômbia. Fotografia: Anadolu Agency/Getty Images
Venezuelanos voltam ao seu país de Bogotá, Colômbia. Fotografia: Anadolu Agency/Getty Images

Diante das medidas cautelares adotadas pelos governos, algumas pessoas em situações delicadas se encontraram desamparadas. No Paraguai, as ações preventivas acentuaram as diferenças sociais, enquanto imigrantes venezuelanos voltam ao seu país.

Os governos dos países da América do Sul optaram por diferentes medidas na contenção do novo coronavírus, que afetaram também a circulação entre países. Especialistas em saúde pública alertaram que a Covid-19 “pode causar estragos” entre as populações mais carentes, como as tribos indígenas presentes em todo o continente.

As tomadas de decisões dos governos também tem diferenças. Enquanto o Paraguai, um dos primeiros países a agir contra a Covid-19, optou por iniciar as medidas de contenção no início de março, o presidente do Brasil Jair Bolsonaro se recusa seguir as orientações sanitárias, declarando que tem “o direito constitucional de ir e vir. Ninguém vai tolher minha liberdade de ir e vir”, além de ter questionado a gravidade do novo coronavírus em detrimento da economia.

Governo paraguaio falha em auxiliar trabalhadores independentes

Dentre os países da América do Sul, o Paraguai é o que hoje apresenta menos casos, com 134 confirmados e seis mortes, de acordo com o Ministério da Saúde Pública e Bem-Estar Social. Entretanto, as medidas rigorosas, que tiveram início na primeira quinzena de março, estão levando parte da população a passar fome dentro de suas próprias casas.

Gráfico do Ministério da Saúde Pública e Bem-Estar Social do Paraguai. Disponível em: https://www.mspbs.gov.py/reporte-covid19.html

A falta de apoio por parte do governo do presidente Mario Abdo Benítez a trabalhadores que não recebem mais salários é a principal causa apontada, dado que cerca de 65% da população sobrevive do trabalho informal. Em entrevista ao The Guardian, Valentina Osuna, artesã da vila indígena de Qom de Rosarino, afirmou que “não há suporte, não há nada do Estado. As minhas crianças estão passando fome”.

O presidente paraguaio pediu desculpas, na última quinta-feira, pela demora no pagamento das prestações do programa Ñangareko, que dá assistência para os mais necessitados e possui um fundo de 1,6 mil milhões de dólares. Em resposta à crise, foi criada a plataforma não-governamental AyudaPy, que distribui doações de itens básicos entre aqueles que precisam e se inscrevem no site.

Em declaração ao The Guardian, Óscar Pereira, membro de uma organização de residentes do bairro Tacumbú, na capital Asunción, afirmou que “a solidariedade mútua mostrada é excecional; pessoas pobres estão ajudando outras pessoas pobres. Nós estamos todos ajudando e dando o que podemos: nós cozinhamos comunalmente para que possamos conseguir comida para as pessoas”.

Alicia Amarilla, coordenadora nacional da Organização de Mulheres Camponesas e Indígenas Conamuri, declarou em entrevista ao The Guardian que “nós veremos muitas situações difíceis que virão desta crise – estamos em um país com muita desigualdade. Nós sabemos que o governo não vai tirar o privilégio daqueles que já o tem. As pessoas que estão mais necessitadas são aquelas que vão continuar sofrendo”.

Imigrantes venezuelanos encarecidos voltam ao seu país

A situação de desamparo não se detém ao Paraguai. Imigrantes venezuelanos que deixaram o país, que até hoje passa por uma crise económica e social, estão voltando à sua terra natal devido à situação de desemprego e desabrigo que enfrentam. Alguns dos imigrantes afirmam que não tem escolha senão voltar, principalmente após os decretos de fechamento de fronteiras.

De acordo com a Agência das Nações Unidas para os Refugiados, mais de 1,6 milhões de venezuelanos se refugiaram na Colômbia, sendo que 60% deles não estavam em situação regularizada no país, impossibilitando qualquer tipo de ajuda governamental.

Venezuelanos usam máscaras em autocarro que vai de Bogotá, na Colômbia, para a Venezuela. Fotografia: Ivan Valencia/Bloomberg

Jenny Salazar é parte dos milhares de migrantes e abandonou o país com sua filha de nove anos, apenas com uma mala. Em entrevista ao The Guardian, a vendedora de rua afirmou que “foi difícil caminhar para cima e para baixo nas montanhas. Entretanto, era a única maneira que nós poderíamos sobreviver. Ficar na Venezuela significaria que iríamos morrer”.

O fluxo de trabalhadores que decidiram voltar à Venezuela não se detém à fronteira com a Colômbia. De acordo com Luzdey Olivo Rodríguez, trabalhadora social venezuelana no Equador, em declaração ao The Guardian, “muitas pessoas estão voltando, não há maneira de sobreviver”, aludindo à situação da cidade de Guayaquil, uma das maiores do país. A trabalhadora social destaca o fato que a maioria dos imigrantes dependiam da economia informal, como venda de comida, roupas e capas de telemóveis, e que a jornada é longa e arriscada durante a pandemia.

A Polícia Federal na fronteira norte do Brasil revelou que também há um fluxo de venezuelanos voltando às suas terras, embora o número seja menor em relação aos de outros territórios da América do Sul. Segundo os dados, cerca de 10 a 20 pessoas estavam ultrapassando a fronteira diariamente, sendo que a maioria afirmava estar voltando para cuidar de parentes.

Durante uma conferência online na semana passada, o presidente da Venezuela Nicolás Maduro declarou que os migrantes que estavam voltando para o país fugiram de um “capitalismo selvagem”, e que “eles querem voltar, e eu falo a eles: ‘irmãos e irmãs! Compatriotas! Bem-vindos! A pátria os recebe com braços abertos”.

O representante da oposição a Maduro na Colômbia, Tomás Guanipa, acusou o presidente venezuelano de criar “campos de concentração” entre os migrantes que retornaram ao país. Marianne Menjivar, representante colombiana do Comitê Internacional de Resgate, afirmou ao The Guardian que a migração reversa é perigosa, e que “a instabilidade regional dessas pessoas caminhando para todos os lados vai de encontro a tudo que sabemos sobre como prevenir a propagação da pandemia”.