Um roteiro feminino para Coimbra

Fotografia: Arquivo da Universidade de Coimbra
Fotografia: Arquivo da Universidade de Coimbra

Conceitual preparou um passeio especial pela cidade dos estudantes para quem quer homenagear o protagonismo de mulheres nas suas trajetórias individuais e lutas coletivas.

Todos os anos, Coimbra recebe milhares de turistas que percorrem suas ruas estreitas à procura dos recantos repletos de histórias que esperam ser contadas. O Conceitual preparou um roteiro que pretende quebrar alguns muros do esquecimento. Propomos uma lupa especial a fim de recuperar e tornar visível a voz e o protagonismo de algumas mulheres nas suas trajetórias individuais e lutas coletivas, contribuindo para a construção da memória feminina.

Privilegiámos três nomes em duas épocas distintas: Isabel de Aragão, Vataça Lascaris e Domitila Carvalho. Convidamos o visitante a percorrer, num dia inteiro, as ruas coimbrãs para descobrir mais sobre estas figuras marcantes que nos saltaram ao caminho pela sua história, empenho na transformação social e poder revolucionário.

Reinar para servir

Nosso roteiro começa em Santa Clara, do outro lado do rio Mondego, mais precisamente no mosteiro de Santa Clara-a-Nova, pois lá encontraremos o antigo túmulo de Isabel de Aragão e ainda o túmulo de prata e cristal com o “corpo incorrupto” da Rainha Santa.

No coro baixo da igreja é possível conhecer o túmulo primitivo da Rainha Santa, executado por Mestre Pero em 1330, que as freiras Clarissas trouxeram do Mosteiro de Santa Clara, quando foram obrigadas a abandoná-lo por causa das inundações do Mondego. Entretanto é no retábulo da capela-mor da Igreja que se encontra a urna de prata e cristal, onde é venerado o corpo de Isabel.

Para Maria José Azevedo Santos, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), investigadora do Centro de História da Sociedade e da Cultura e especialista em D. Isabel de Aragão, aplica-se a esta senhora, com toda a propriedade, a expressão reinar para servir: “Nasce com o desígnio de santidade. O selo maior da sua passagem por este mundo foi, sem dúvida, o amor ao próximo sobretudo o doente, o órfão, a prostituta e o leproso. Paralelamente, revelou-se uma notável mulher de cultura, uma diplomata hábil, uma rainha inteligente.”

Ouça aqui o depoimento de Maria José Azevedo Santos

Isabel de Aragão, filha de D. Pedro III de Aragão, casou com o rei D. Dinis em 1282. Figura religiosa, empreendedora e altruísta, D. Isabel transformou a vida social, religiosa e até política da cidade de Coimbra na época. Apesar de nunca ter tomado os votos de Clarissa, a “Rainha dos Pobres” viveu muito ligada a esta ordem religiosa e escolheu ser sepultada no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, algo verdadeiramente inédito em uma época em que reis e rainhas eram sepultados juntos.

Foi com a Rainha Isabel que nasceu o conceito das Misericórdias e, com o seu financiamento, nasceram os primeiros estabelecimentos de apoio aos pobres, aos doentes, aos velhos, aos órfãos e às prostitutas.

A única mulher na Sé Velha

De Santa Clara nosso roteiro atravessa o rio Mondego rumo à igreja da Sé Velha, bem no coração da Baixa da cidade. Fundada durante o reinado de Afonso Henriques, a Sé Velha de Coimbra representa uma joia do Românico português, é a única catedral portuguesa construída na época da Reconquista cuja estrutura chegou intacta até à atualidade.

E é na Sé Velha – em meio a túmulos de bispos – que está sepultada Dona Vataça Lascaris, a única mulher que descansa sob as centenárias pedras da igreja. Vataça foi uma dama da família real do Império de Niceia que acompanhou a rainha Isabel de Aragão e o rei D. Dinis de Portugal na corte portuguesa. Esta princesa Bizantina é tida como uma mulher dotada de consistentes aptidões diplomáticas, utilizadas no apaziguamento dos estados peninsulares. Se Vataça tivesse nascido em nosso tempo, poderia ocupar agora o cargo de Secretária-Geral das Organização das Nações Unidas.

O túmulo de D. Vataça localiza-se ao fundo do templo, à esquerda. Constitui-se numa imponente arca tumular, tradicionalmente visitada pelas noivas que se casam nessa Sé, e que aí costumam deixar os seus buquês de flores em homenagem àquela cujo túmulo dispensa por completo qualquer referência à linhagem do esposo, D. Martim Anes de Soverosa, ao mesmo tempo que faz um uso ostensivo das armas herdadas da mãe: águias bicéfalas, da Dinastia Láscaris. Quando estiver em frente ao túmulo, não deixe de pensar um pouco sobre quantas mulheres da Idade Média se encontram representadas, isto é, se tornam presentes, mesmo quando na ausência (o que é em si muito revelador também) em um lugar onde apenas homens receberam tal homenagem.

A pesquisadora Maria Helena da Cruz Coelho ressalta, para o Conceitual, que D. Vataça se destaca pela sua grande cultura e acção político-diplomática. A historiadora medievalista portuguesa e Professora Catedrática da Universidade de Coimbra (UC) escreveu na obra “Os bens de Vataça – visibilidade de uma existência” (1987) que “Vataça prepara mesmo a sua presença eterna entre os homens, testemunho da sua fama, da sua glória, da sua nobreza. Exige um «moymento» fúnebre, uma memória de si gravada em pedra. Mulher complexa, multiforme, rica na ação e no espírito, Vataça foi «senhora», mas era também mulher. Fora poderosa no público, invejada e concorrenciada por inimigos, devido ao seu prestígio e ao grande «amor» de que era objeto por parte de reis e rainhas, príncipes e princesas. Afirmara-se, não por ter manejado bem as armas, não pela violência física, comprometedora da existência social, mas pela sua inteligência e qualidades, pela reflexão e previsão, pelo conhecimento da sociedade, dos caracteres e das almas, pelas suas vitórias no jogo político, na pacificação do mundo peninsular.”

Rara e discreta

Ao sair da Sé Velha, suba para a UC através do labirinto de ruas íngremes da Alta da cidade: nosso roteiro feminino termina nos arquivos da instituição, um prédio que fica atrás da Biblioteca Geral, perto da Porta Férrea. É lá que o visitante poderá pedir acesso aos documentos académicos de Domitila Hormizinda Miranda de Carvalho – a primeira estudante universitária em Portugal. À UC, a universidade mais antiga de Portugal, a primeira aluna só chegou em 1891.

Domitila nasceu em Travanca da Feira (Aveiro) em 1871. Ao completar o ensino secundário requereu o seu ingresso na UC ao Magnífico Reitor e tornou-se a primeira mulher, depois da reforma universitária de 1772, a ser admitida no ensino superior, onde se matriculou em outubro de 1891.

No entanto, o Reitor ditou que Domitila deveria trajar sempre de negro, com chapéu discreto e de forma sóbria de modo a que não se evidenciasse entre os colegas masculinos, que obrigatoriamente vestiam capa e batina fechada. A pioneira Domitila não só frequentou os cursos de Matemática e Filosofia, que concluiu com distinção em 1894 e 1895, respetivamente, como de seguida ingressou em Medicina, e até 1896 foi a única aluna da UC. Em 1904 doutorou-se em Medicina, com 16 valores.

Quem hoje passeia pela UC e vê tantas mulheres com seus livros e cadernos nas mãos, talvez não saiba que a formatura de Domitila se deu somente 606 anos após a fundação da instituição superior mais antiga do país, fundada em 1290 – pelo marido de Isabel de Aragão, melhor amiga de Vataça Lascaris.


Fotografia de Domitila que está atualmente no Arquivo da Universidade de Coimbra.

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