Yuval Noah Harari: o mundo pós coronavírus

Yuval Noah Harari. Foto: Nando Pereira em Dharmalog.com

Em artigo ao Financial Times, o best-seller Yuval Noah Harari argumenta que apenas a cooperação global resolverá a pandemia. “Precisamos de um espírito de cooperação e confiança”, alerta.

O jornal inglês Financial Times colocou em livre acesso aos não-assinantes, o artigo de uma das personalidades intelectuais mais influentes dos últimos anos, o historiador israelense Yuval Noah Harari. Publicado na sexta-feira, 20 de março, o artigo é acompanhado por imagens tiradas de webcams com vista para as ruas desertas da Itália, encontradas e manipuladas por Graziano Panfili, um fotógrafo que está em isolamento na capital Roma.

No dia seguinte à publicação, a jornalista Matilde Sánchez, da revista argentina Clarín – Ñ Magazine, escreveu uma reportagem a respeito:

O texto é um chamado aos governos mais poderosos do planeta, com o objetivo de sacudir a cidadania: não são tempos para pensar em termos de nacionalismo, nem de vantagens de saúde monopolísticas, mas para agir mais globalmente do que nunca, e com responsabilidade.

“As decisões que os governos e os povos tomarem, nas próximas semanas, provavelmente moldarão o mundo que teremos nos próximos anos. Não apenas formatarão nossos sistemas de saúde, mas também nossa economia, política e cultura, devemos agir com rapidez e com decisão”, argumenta o autor de “Sapiens: de Animais a Deuses, Uma Breve História da Humanidade”.

Uma palavra sobre a trajetória meteórica de Harari

O jovem historiador encarna a nova estirpe de intelectuais de alta divulgação, eficazes para atravessar de maneira transversal todas as instituições, influenciando políticos, audiências e acadêmicos, com um discurso e conceitos suficientemente planos e significativos.

Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e o palestrante mais bem pago do mundo (apresentado por somas de seis dígitos e uma sofisticada estratégia de comunicação que inclui visitas a outras personalidades), foi impondo-se como uma referência séria nas universidades de todo o mundo a partir desse canal próprio, que são seus livros. De fato, é o autor de um sucesso editorial único.

Capa do artigo de Yuval para o inglês Financial Times. Foto: reprodução internet.

Nos ensaios “Sapiens: de Animais a Deuses, Uma Breve História da Humanidade”, postula que a história tem um sentido, e que isso se desdobra como história da progressiva unificação dos diferentes ramos da espécie humana, amalgamados por seu espírito de cooperação e os mitos que foi capaz de criar graças à linguagem.

Para Harari, nosso mito dominante atual e por vários séculos é o da Liberdade, que funda, entre outras instituições, a democracia ocidental. De fato, existe hoje uma profunda mudança de paradigma desde a chegada dos algoritmos. Para Harari, no entanto, continuamos cativos de nossa biologia e genética.

Não estamos tão longe desse Homo sapiens que com tanta beleza concebeu Stanley Kubrick, em uma Odisseia no Espaço, quando o primata evoluído descobriu uma ferramenta para atacar e enfrentava sua primeira pergunta existencial ao confrontar-se com o enigmático monólito. Estamos ligados à nossa genética, mas precisamos da história de nossa liberdade.

Em “O mundo após o coronavírus”, Harari alerta que o primeiro dilema é entre a vigilância totalitária e o empoderamento dos cidadãos, o segundo desafio é entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global.

Harari defende que a tempestade da pandemia passará, sobreviveremos, mas será outro planeta, já que muitas das medidas atuais de emergência deverão ser estabelecidas como rotinas fixas: “essa é a natureza das emergências, aceleram os processos históricos em fast forward”, afirma.

O escritor explica ainda que “as decisões que em tempos normais levam anos de deliberação são tomadas em poucas horas”. As tecnologias perigosas e imaturas entram rapidamente em vigor, porque os riscos de inação são piores. Países inteiros já funcionam como cobaias para experimentos sociais em larga escala. “O que acontece quando todos trabalhamos em casa e só temos comunicação remota? O que acontece quando todas as escolas e universidades trabalham online?”, essas são perguntas que a população mundial está fazendo neste momento, do médico ao trabalhador de escritório, do empresário ao professor.

Falamos sobre um controle biológico neste momento, segundo ele, uma “vigilância subcutânea” para deter a epidemia. Pela primeira vez na história, os governos hoje têm a capacidade de monitorar toda a sua população ao mesmo tempo e em tempo real, um dispositivo que nem a KGB soviética conseguiu em um único dia. Os governos de hoje conseguem isso com sensores onipresentes e poderosos algoritmos, como demonstrou a China, monitorando a população por meio de telefones celulares e câmeras de reconhecimento facial.

A questão, nos alerta, é se os dados de suas reações serão usados politicamente para saber como respondem as emoções do eleitorado a certos estímulos: em outras palavras, para manipular grandes massas. Agora, vários aplicativos na China alertam ao portador de um celular que está perto de uma pessoa infectada: a que suposto perigo poderiam nos alertar também?

Esses tipos de tecnologias não se limitam à Ásia. Harari nos lembra que, recentemente, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu autorizou a Agência de Segurança a usar tecnologia anteriormente restrita a combater terroristas para rastrear pacientes com coronavírus, isso foi feito através de um determinante “decreto de emergência” que rejeitou as objeções da oposição no Parlamento.

Em outras palavras, a tecnologia de vigilância em massa que antes assustava muitos governos poderá ser usada regularmente: não mais um controle “sobre a pele”, mas “sob a pele”. Os políticos terão muitas informações sobre o que nos provocam tristeza, tédio, alegria e euforia. Isso representa um poder sobre as populações sem precedentes e arriscado.

Por outro lado, no entanto, foi demonstrado que o monitoramento centralizado e a punição severa não são a maneira mais eficaz de alcançar o cumprimento das regras que poderiam nos salvar. Uma população motivada em sua própria saúde e bem informada é a única chave. De fato, esse é o grande ensinamento da política do uso do sabão, que não exige que um Big Brother (Grande Irmão) assista toda hora: o hábito do sabão precede todos os regulamentos, é um tipo de legado familiar de longo ciclo histórico.

A Magazine Ñ é um suplemento do jornal argentino Clarín. Foto: reprodução internet.

O historiador adquire sua posição de filósofo ao insistir na centralidade das histórias comuns às civilizações, por exemplo, de costumes higiênicos. Para atingir esse nível de cumprimento e colaboração no bem comum, é necessária confiança na ciência, nas autoridades públicas e nos meios de comunicação.

“Nos últimos anos, políticos irresponsáveis minaram deliberadamente a confiança na ciência, nas autoridades e nos meios de comunicação”, afirma Harari. Agora, esses mesmos políticos poderão ficar tentados a seguir o caminho mais rápido para o autoritarismo, com o argumento que não se pode confiar que o público faça a coisa certa”, adverte.

Normalmente, a confiança que foi corroída por anos não pode ser reconstruída da noite para o dia. Mas estes não são tempos normais. “Em vez de construir regimes de vigilância, não é tarde para recuperar a confiança do povo na ciência, nas autoridades e nos meios de comunicação”.

Definitivamente, devemos empregar novas tecnologias também. Mas estas deveriam empoderar os cidadãos. “Sou muito a favor de monitorar a temperatura corporal e a pressão sanguínea, mas esses dados não devem ser usados para criar um governo todo-poderoso, devem me permitir tomar decisões pessoais mais bem informadas e também deveria fazer com que o governo preste conta de suas decisões”, escreve.

O escritor declara que “se pudesse controlar minha condição clínica 24 horas por dia, saberia se me tornei um risco para os demais e também saberia quais hábitos ajudam minha saúde. E poderia acessar e analisar estatísticas confiáveis sobre a disseminação do coronavírus, avaliar melhor se o governo está nos dizendo a verdade e se está tomando as medidas apropriadas para combater a epidemia”. Complementa que “quando as pessoas falam sobre vigilância, é preciso ter presente que essa mesma tecnologia que o governo usa para monitorar indivíduos pode ser usada por indivíduos para monitorar o governo”.

“O coronavírus é um teste superlativo para os cidadãos, dado que nos próximos dias cada um de nós terá que decidir se deve confiar em informações científicas e especialistas em saúde ou, pelo contrário, em teorias infundadas de conspiração e em políticos interessados”, sublinha. Harari ainda lembra que “se não tomarmos a decisão certa, poderemos abrir mão de nossas mais preciosas liberdades, acreditando que é assim que protegemos nossa saúde”.

No trecho mais vibrante de seu artigo, Harari exorta que tenhamos um plano global. Sua segunda premissa exige que escolhamos entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global. Dado que tanto a epidemia, quanto a crise econômica são globais, e apenas poderão ser resolvidas com a cooperação global. Para derrotar a pandemia, precisamos compartilhar globalmente a informação, e essa é a grande vantagem dos seres humanos sobre os micro-organismos.

A China pode ensinar muito aos Estados Unidos da Améria (EUA) como combater o vírus, e enquanto o hesitante governo britânico decide entre privilegiar a economia e não a saúde pública, os coreanos têm muito a ensinar sobre a luta contra o coronavírus. Entretanto, isso não pode ser alcançado sem o compartilhamento de informações.

“Precisamos de um espírito de cooperação e confiança”, nos alerta, e também da plena disposição internacional de produzir e distribuir equipamentos médicos, como kits de teste e respiradores. Assim como os países internacionalizam suas principais indústrias durante uma guerra, o combate contra o coronavírus exige “humanizar as indústrias comprometidas com o bem comum”, afirma.

Um protocolo global deveria permitir que equipes muito controladas de especialistas continuem viajando, cientistas, médicos, políticos e empresários retornando para casa com a experiência adquirida e a ajuda fornecida. Os líderes do G7 conseguiram finalmente, há alguns dias, organizar uma videoconferência, mas não conseguiram chegar a um acordo. A paralisia parece ter conquistado a comunidade internacional.

“A atual administração dos EUA recusou seu papel de líder global”, critica Harari. “Deixou claro que se importa muito mais com a grandeza dos EUA do que com o futuro da humanidade”. Abandonando até mesmo seus melhores aliados, escreve, o governo de Donald Trump escandalizou o mundo ao oferecer bilhões a um laboratório alemão para monopolizar a fórmula de uma vacina.

Se o vácuo deixado pelos EUA não for preenchido por outro país, será ainda mais difícil deter a pandemia. A humanidade está enfrentando um desafio histórico: adotamos o caminho da solidariedade global ou o da desunião, que apenas prolongará a crise?